Desafios para o novo Gestor da Educação: Educação Integral e Plural, Dialogicidade, Interdisciplinaridade na Construção de um Currículo para a Rede

Este é o quinto texto que faz parte da série que pretende debater aspectos da educação municipal, como desafios para a nova gestão da Prefeitura Municipal de Itupeva/SP e sua Secretaria de Educação.
_________________________________________________________________________________


Por: Daniele Júlia Nascimento Martí


Ao instituir na Rede de Ensino de Itupeva as novas disciplinas do currículo: Inglês, Filosofia, Música e Robótica, a administração (2013 a 2016) atendeu à Lei Federal nº 11.738 / 2008, conhecida como "Lei do Piso", porém em que, além de horas de estudo aos professores, essa nova grade curricular pode favorecer a educação de melhor qualidade que queremos?

A interdisciplinaridade é discutida no Brasil desde a década de 1970, e no decorrer dos anos muitas foram as definições e entendimentos sobre essa temática. Duas vertentes se destacam:

  • um diálogo integrativo entre diferentes disciplina;
  • desenvolvimento do currículo da educação básica, pensando estratégias para a integrar disciplinas, como as matérias do currículo escolar. É importante destacar que, ao representar um princípio de integração das disciplinas escolares, dessa forma estabelecendo um modo de pensar e produzir o currículo escolar contrastando com a tendência tradicional de recorte e especialização do conhecimento.
Muito além de construir pontes entre as disciplinas elencadas, mais do que cada professor buscar em sua individualidade temas a serem estudados, debatidos e refletidos em outras áreas ou articulando conteúdos elencados em uma lista, na forma como o currículo, comumentemente, é concebido, a interdisciplinaridade deve ser integrada a ele de forma a ser garantida a construção plural do conhecimento.

A melhor forma pra que isso aconteça é a partir da elaboração conjunta de Projetos que norteiem a ação de alunos e professores em empreender investigação sobre determinado tema.

Os projetos investigativos são aqueles que surgem de uma indagação, de uma inquietação que exige outras leituras das fornecidas por uma única disciplina do currículo, requerendo outras perspectivas.

Dessa forma, mais do que sugerir o estudo integrado de disciplinas individuais, busca-se uma integração, uma nova forma de construção deste currículo. É fundamental pensar nessa construção, não apenas em sua perspectiva epistemológica, mas também em seu design. Antes de mais nada é preciso pensar qual é a educação que queremos, que tipo de cidadão estamos educando e queremos formar. 



A Filosofia na escola de Ensino Fundamental 1, ao meu ver, deve enfatizar e trabalhar no sentido de buscar em nossos educandos reflexões a cerca de si próprio, do seu cotidiano e do seu entorno.



Percebo, muitas vezes que, os desafios no trabalho com crianças se refere à maneira como as teorias lhes são apresentadas, dificilmente o professor revela o processo por intermédio do qual obteve-se a resolução de uma questão. Sendo assim, os alunos são impelidos a decorar fórmulas e regras que em si mesmas têm pouco ou nenhum sentido relacionado à sua práxis, o que, por extensão, torna o aprendizado entediante e descontextualizado para eles, uma vez que o resultado já pronto priva-os de conhecer o percurso que foi feito para alcançá-lo enquanto teoria científica. Isso também acontece quando se trabalha a Filosofia nas escolas sem dar margem aos alunos a refletirem de fato as questões cotidianas e não lhe damos a oportunidade de expressar suas próprias ideias e pensamentos. Ainda, quando se fixa em teorias muito distantes da realidade deles.



Visto que, as crianças com as quais trabalhamos a Filosofia na escola no município de Itupeva têm a faixa etária de 6 a 10 anos, encontrando-se em estágio Pré-operatório onde a criança já está em um período intuitivo, centrado na percepção e não na imaginação, logo é menos egocêntrico, mas pouco flexível, preso aos acontecimentos particulares, às impressões sensíveis em transição para o estágio das Operações Concretas. 



No estágio das Operações Concretas que vai dos 7 aos 11 anos, a criança, segundo Piaget, reorganiza verdadeiramente o pensamento. Já no estágio anterior as crianças começam a ver o mundo com mais realismo, deixam de confundir o real com a fantasia. É neste estágio que a criança adquire a capacidade de realizar operações. Podemos definir operação como a ação interiorizada composta por várias ações e reversível, pois pode voltar ao ponto de partida. A criança já consegue realizar operações, no entanto, precisa de realidade concreta para realizar as mesmas, ou seja, tem que ter a noção da realidade para que lhe seja possível efetuar as operações. Portanto, não podemos falar de Sócrates e Platão para a criança se ela não conhece a si mesma e o meio que a cerca, se ela ainda não compreendeu as relações que acontecem em seu meio e o que representam. 

Nesse estágio, quanto ao Espaço, a criança vai conhecendo os vários espaços nos quais interage, organizando-os. Também aqui está presente a reversibilidade do real, onde o conceito de espaço está relacionado com o conceito de operação. O espaço isolado por si só não existe. Quanto ao Tempo, não há reversibilidade do real, o tempo existe apenas no nosso pensamento, os acontecimentos sucedem-se num determinado espaço, e o tempo vai agrupando-os.¹

Ela ainda precisa estar em contato com a realidade, assim seu pensamento é descritivo e intuitivo (partindo do particular para o geral). Ao longo deste período já não tem dificuldade em distinguir o mundo real da fantasia. Também já interiorizou algumas regras sociais e morais e, dessa forma, as cumpre para se proteger. A partir daí a criança começa a valorizar o grupo de amigos, adquirindo valores tais como a amizade, companheirismo, partilha, etc., aí também há o destaque para os que têm liderança. Portanto é nessa fase que se faz necessário refletir sobre moralidade, ética e valores, baseando-se em situações problemáticas do cotidiano vivenciado por eles.

Para Martin Buber, a essência da atividade do educador é ensinar sem se perceber como tal, uma vez que quem realmente educa é o mundo, com isso conclui-se que para acontecer uma educação filosófica verdadeira é necessário que haja um diálogo investigativo.

Para Lipman, o pensamento e a opinião da criança devem ser levados em consideração, sempre, devendo-se aceitar tanto pensamentos cuidadosos, quanto aqueles mais intempestivos, ambos auxiliam na reflexão acerca do mundo. O que contribui para a elevação da autoestima, pois a criança percebe que seu ponto de vista também é levado em conta.

Ao construir a subjetividade do aluno, desde muito cedo, teremos o desenvolvimento de múltiplas habilidades de pensamento que promoverão mudanças importantes no desenvolvimento integral do ser.

Assim, intermediado pela vivência dos conceitos de filosofia que transcendem a todos as áreas do conhecimento, os alunos desenvolvem-se mais críticos, inquiridores e seguros da sua própria capacidade de aprender, apreender e dar, eles mesmos, suas próprias contribuições aos diferentes domínios do saber humano.

Quanto à Música, sabe-se que é considerada como Linguagem Universal, o que a torna uma área muito vasta para se trabalhar com a sensibilidade, com a estética, com ritmo, a
compasso, favorecendo o desenvolvimento cerebral, a cognição, o raciocínio, e muito além disso a música proporciona a reflexão, o conhecimento e um olhar mais apurado para a realidade, do tempo e do espaço, através da arte. A partir da Música é possível conhecer a nossa história, a história da humanidade a através de suas produções culturais, valorizando-os.


Tenho como concepção que a Arte deva ser valorizada, em todas as suas linguagens por nos permitir crescer enquanto seres humanos, plurais, integrais, expressivos, tornando-nos mais sensíveis, pois acredito, como Paulo Freire, que a função da Educação é humanizar o ser humano, tornando-o cada vez mais humano, é garantir tal desenvolvimento nos educandos. Enquanto se nega a humanidade a muitos, a missão em se educar está em se devolver a humanidade.

Ao se falar em Humanidade, precisamos pensar também nas questões tecnológicas que envolvem a humanidade, refletir essas questões é fundamental para que o aluno perceba que a tecnologia deve estar a serviço da humanidade e também da educação. É fundamental que se tenha as Tecnologias aliadas à Educação nesse sentido.

Em Inglês creio que o trabalho deva ser também de maneira interdisciplinar e conjunta, buscando a pluralidade e divulgação de culturas, a partir de projetos envolvendo as novas tecnologias, onde o conhecimento seja desenvolvido a partir de situações reais do uso da língua.

Tornar a educação plural vai além do que temos visto, pois conforme o Programa Mais Educação ela busca mais que uma escola integral, mas que toda criança na escola fosse tratada como gente, respeitada e trabalhada em sua integralidade, segundo Miguel Arroyo².

Segundo ele, a escola tem que se integrar com uma pluralidade de forças para dar conta da educação integral.

“A VIDA É DIALÓGICA POR NATUREZA. VIVER SIGNIFICA PARTICIPAR DE UM DIÁLOGO: INTERROGAR, ESCUTAR, RESPONDER, CONCORDAR ETC. NESTE DIÁLOGO O HOMEM PARTICIPA TODO E COM TODA A SUA VIDA: COM OS OLHOS, OS LÁBIOS, AS MÃOS, A ALMA, O ESPÍRITO, COM O CORPO TODO, COM SUAS AÇÕES. ELE SE PÕE TODO NA PALAVRA, E ESTA PALAVRA ENTRA NO TECIDO DIALÓGICO DA EXISTÊNCIA HUMANA, NO SIMPÓSIO UNIVERSAL.” (BAKHTIN, 2013)
Este tipo de trabalho considera que a Educação sempre é carregado de dialogismo, que os textos e conteúdos são carregados de hipertextualidade, garantindo “multiletramentos”, contribuindo para a aproximação da realidade cotidiana de nossos educandos, para além dos programas pré-fixados que temos hoje, permitindo uma Educação Plural e Dialógica que demandamos em nosso tempo.

Para que tudo isso seja uma realidade, não há milagre a ser feito, apenas uma palavra de ordem há nesse sentido e em basicamente todos os Desafios elencados até o momento: Formação em Serviço que dialogue (também) com a prática. Para que professores possam conhecer, debater, desenvolver habilidades e competências voltadas para esse trabalho.

Para o professor também estão postos novos desafios, não mais tão somente o de como ensinar, mas como o de aprender. Isso requer uma nova postura docente no sentido de modificar as formas de trabalhar com o conhecimento e a informação, não mais como transmissor e sim como um facilitador de aprendizagens. Contudo, não é de uma hora para outra que esses profissionais se farão diferentes, é necessário que sua formação seja permanente e aconteça dentro de sua esfera de trabalho, onde sua realidade seja contemplada, onde possa trocar informações e conhecimentos com seus pares e onde possa também ensinar.

Aos gestores educacionais o desafio é o de promover Políticas Públicas que garantam esse movimento e investimento.



² https://educacaoeparticipacao.org.br/acontece/miguel-arroyo-a-escola-tem-que-se-integrar-com-uma-pluralidade-de-forcas-para-dar-conta-da-educacao-integral/




http://www.faesi.com.br/nucleo-de-pesquisa-cientifica/75-portal-do-saber/238-a-musica-como-recurso-pedagogico-no-contexto-da-educacao-especial

_________________________________________________________________________________



Daniele Júlia Nascimento Martí

Professora de Ensino Fundamental e Ed. Infantil, há 19 anos
Pedagoga (PUC/ SP)
Especialista em Gestão de Instituições Educacionais (UNICOC) e em Especialista em Tecnologias Educacionais (PUC/Rio)
Fui Coordenadora Pedagógica de Educação Infantil e Ensino Fundamental de escolas municipais (rurais e urbanas).
Fui Tutora Pedagógica Especialista em Curso de Licenciatura em Pedagogia (pela Unicoc) Coordenadora e Formadora de Programa de Formação de Professores em Tecnologias Educacionais, que abrange a dimensão de formação, fornecimento de equipamentos e materiais digitais - Proinfo Integrado da SEED/ MEC - governo federal do Brasil (de 2008 a 2011), Coordenadora na Implantação de Sistema de Gestão - Planeta Educação - Future Kids - Vitae (Coordenei a implantação do sistema, sua alimentação e manutenção, emissão de boletins e históricos, de junho de 2009 a maio de 2010, na rede municipal de Itupeva, quando o contrato foi rescindido, liderando pessoal de apoio administrativo em 26 escolas municipais), além de cuidar da manutenção com informações, curiosidades e matérias relacionadas à educação no site da Diretoria de Educação de Itupeva/SP, neste mesmo período. Assessoria Pedagógica, Administrativa e Tecnológica em montagem de escolas e creches desde o esboço do projeto até sua implantação, e acompanhamento nas diversas dimensões da Gestão Educacional.
Membro da Diretoria Executiva e Coordenadora de Tecnologias Educacionais da Abrapee Nacional e Estadual de SP



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A importância de transformar uma cidade em Cidade Inteligente

A Educação que queremos surgirá no pós pandemia

O Desafio da Formação Continuada